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Orar ou Meditar

claudia

Este texto foi escrito já faz alguns aninhos, numa etapa diferente da minha vida, e longe de poder adivinhar que hoje estaria onde estou.

«Hoje Deus penteou-se e descobri que está com caspa. É a chamada caspa cigana, eu já tive, é aquela caspa de quem usa um champô reles de supermercado, que deixa o couro cabeludo cheio de comichão e seco. Quando nos penteamos sai aqueles flocos finos que pintam os ombros das camisolas. Terrível. Não sei qual o supermercado em que Ele entrou, mas o champô definitivamente era reles. Encheu os ombros deste lado do mundo de caspa. O que vale é que ele, apercebeu-se disso e ao rir-se soprou grande parte da caspinha e nem sinal dela agora existe. Mas o sopro trouxe o vento e o vento é frio. Estão -5ºC!


É, Deus tem um humor peculiar, e ultimamente tenho-o sentido amiúde. Nem sempre me agrada, mas por vezes é tão fabuloso que só me resta rir, rir mesmo até ficar sem fôlego, de tanta parvoíce pegada que me sai na rifa.
Deixando isto para trás o que me tem acontecido nos últimos tempos?, depois das festas, onde a azáfama faz com que os dias corram a uma velocidade maior que o normal. Onde a reflexão é deixada para um pouco mais tarde. O que me tem acontecido, um mês depois do novo ano ter começado? O que vos tem acontecido a vocês? Pouco ou nada tenho sabido da maioria. Que coisas boas têm acontecido? E ruins? Tenho dado os parabéns a quem fez anos, perguntado sobre o andar da propaganda política a outros, sobre o tempo e sei que está muito frio por aí também, tenho deixado saber que tenho saudades do mar, do Tejo. Engraçado, no outro dia, juro que ouvi o mar… era o vento nas árvores… e eu quase que senti o cheiro a maresia. Sim, tenho saudades do mar, de Lisboa e de outras coisas mais.

E o que me tem acontecido é que tenho andado zangada.
Uhm, acredito no poder do Ser maior, não num Ser maior, mas no poder do Ser maior. Porém, ultimamente tenho andado em terrível luta com a zanga, ressentimento e desespero.
Há razões: luto, separações, deportações, desemprego, amigos doentes, amigos em desespero…
Não é justo. Nada disto é justo. Mas como uma grande amiga minha, já me diz há anos, “Porque esperas que a vida seja justa?” Ela está certa. A vida é simplesmente a vida. Não faz julgamentos. No entanto, continuo a bater com o pé e a ficar numa fúria tal e qual uma adolescente: “como podes fazer isto?” “Como pode isto acontecer?”

Posso apoiar os meus amigos e sofrer com eles, mas não consigo tirar-lhes a dor, por muito que eu queira. A minha zanga é então, sobre a minha impotência, o sentimento de injustiça, e como nada posso fazer no que respeita à morte, foco a minha fúria nos vivos, nos que porventura cruzam o meu caminho e são injustos, ofendem e magoam.

Aflige-me a forma como a zanga segue todos os meus passos como um cão danado, porque sei, bem demais até, que a única pessoa que estou a magoar, sou eu mesma.
Sinto o ressentimento corroer o meu coração e detesto isso. É o pior de mim, não o melhor.
E não estou só, vejo-o e oiço-o ao redor. É um dos problemas mais comuns, como deixar a zanga para trás e seguir em frente.
Não sei a resposta, mas sei que é necessário um esforço diário, consciente, para me livrar da zanga. E aqui estou eu, que já não sei em que acredito, rezando diariamente, pedindo libertação de todas as emoções tóxicas e querendo habitar um lugar melhor.

Falo de rezar como uma forma de meditação – ou talvez meditar como uma forma de orar – para acalmar as vozes na minha mente. O cristianismo incita-nos a rezar pelos nossos “inimigos”, (perdoai, mostrai a outra face!), o budismo, que se concentra mais no ser do que no divino convida a olharmos os “inimigos” como seres humanos com falhas – tal como cada um de nós – o que me parece um caminho mais gentil, nem que não seja só e apenas, porque saltar do sentimento de ressentimento para o perdão, é muito mais difícil para a maioria de nós, comuns mortais. Lento e brandamente é bem mais fácil.

Diz-se por aí, “zanga-te, tens todo o direito de te zangar” – mas se ignorar as nossas emoções não nos faz nada bem, sermos consumidos por elas é muito pior.
Não sei porque meditar e orar funciona, mas funciona. Pelo menos para mim. A psicologia moderna chama-lhe substituir padrões de pensamentos negativos por padrões positivos, assim, no fim, vem tudo dar ao mesmo – usar o poder (da mente) para aquietar a mente.
Não é fácil, é preciso treino diário, mas como se costuma dizer, “Porque haverias de esperar que fosse?”

E assim, aguardo o que está reservado para mim e quando tudo atinge o surreal, só me resta rir.
Mas não aguardo apenas, ajo também, sempre que posso, escolho. Nem que seja um champô melhor para evitar a caspa.»

By Fátima Gouveia

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